[Público] Chile: crise no paraíso neoliberal

Por muitos anos o Chile foi tratado por economistas e políticos neoliberais como o ideal a ser seguido. Instaurou pela primeira vez sob as alçadas de um governo autoritário e de extrema direita – liderado por Pinochet – um modelo de ditadura que foi o laboratório para políticas neoliberais no mundo – até bem pouco tempo utilizado como exemplo de como essa política de Estado mínimo a custa da população é capaz de trazer benesses económicas.  

Na esteira dos ideais da Escola de Chicago, que depois foram exportados para outros países neocoloniais e finalmente pra Europa e EUA – esse mesmo modelo de políticas tem virado nas últimas três décadas senso comum – extrapola a extrema direita e invade a esfera pública com imposição de livre comércio, ataques aos direitos sociais, precarização do trabalho, privatizações de serviços públicos, e impõe seus ajustes e reformas econômicas a classe trabalhadora e o meio ambiente. A retirada de direitos sociais e económicos que aumenta a concentração de renda e riqueza, e retira a responsabilidade do Estado em diversas áreas em prol do benefício do mercado, são características desse modelo.

As manifestações lideradas por estudantes de secundária que tiveram início em 14 de outubro, e paralisaram as estações de metro com protestos contra o aumento na tarifa de transportes públicos – rapidamente se converteram em protestos contra a ordem hegemónica neoliberal instaurada no país há décadas e deixaram evidentes As veias abertas da América Latina –  frase/título de um dos textos clássicos do jornalista uruguaio Eduardo Galeano, onde critica as políticas imperialistas que invadiram e ainda hoje massacram a região.

A repressão policial aumentou ainda mais a quantidade de estudantes mobilizados que tem se mantido firmes mesmo diante da violência brutal do Estado frente as manifestações. Os protestos emergem como o estopim de uma série de demandas que tem sido constantemente negligenciadas pelo governo – e que conduziram à precariedade generalizada nas mais diversas áreas do serviço público. Expressões diversas de um formato de Estado que através de um modelo neoliberal extractivista perpetua uma oligarquia do poder político e económico que oprime progressivamente seu povo.

O estado de exceção perpetrado pelo Estado chileno com o intuito de legitimar a violência contra os manifestantes tem tido como resposta o levante de várias greves parciais que foram convocadas nos últimos três dias – já há mais de vinte portos fechados e recentemente o sindicato dos mineiros do Chile (uma das categorias mais importantes do país) apela a greve em solidariedade aos estudantes.

O filósofo chileno Ricardo Espinoza Lolas já há algum tempo chamava atenção ao facto de que o modelo neoliberal implementado no Chile impõe o ideal de um capitalismo hierárquico, militarizado já que é incapaz de cumprir as demandas sociais. Lolas alerta que o ideal de capitalismo bem-sucedido que o presidente do Chile Sebastián Piñera exportou para o mundo os últimos anos, nada mais é que um sistema politico que pretendia manter as pessoas presas em sua subjetividade, no gozo individualista, sem vínculos com o contexto  sócio-histórico – nesse formato até os mais pobres se sentiam empreendedores a ponto de se tornarem soldados radicais dessa economia ideológica que os transforma em zumbis com o passar do tempo.

Depois de uma década de retrocessos sociais e derrotas para esquerda – avista-se uma nova onda de contestação social  que desestabiliza governos – os levantes populares em Chile, Equador, Líbano tem em comum a insurgência de uma massa que se levanta contra as políticas neoliberais a nível internacional.

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Sou a Marcela

Bem-vind@s neste blog onde tento juntar as coisas que tenho escrito. Sou filosofa e jurista Luso-Brasileira, e combino minha vida académica com ativismo anticapitalista, antirracista e feminista.