[Público] De golpe em golpe

Depois do golpe parlamentar que levou a ex-presidente Dilma Rousseff ao impedimento, o Brasil agora vivência a tentativa de autogolpe de Estado organizada pelo atual presidente Jair Bolsonaro. Diante da emergência de uma insurgência popular que não aceite ataques à democracia e aos direitos sociais mais básicos e subsequente crise de governo, em meio dos festejos da maior festa popular brasileira, o carnaval, o presidente Jair Bolsonaro apelou, através de mensagens de WhatsApp, á participação em manifestações contra os demais poderes do estado; os poderes legislativos e jurídicos. Incentivados por parlamentares bolsonaristas e por setores militares, movimentos de extrema direita assumem a organização do protesto contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF) a ser realizado no próximo dia 15 de março.

Em tom dramático o vídeo apela á defesa do presidente. A mensagem partilhada pelas redes sociais, para além de Bolsonaro, conta ainda com a assinatura do general reservista do Alto Comando das Forças Armadas (ACFA) e atual ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno. Em áudio vazado de uma transmissão durante um cerimônia oficial (19.02), o mesmo ministro defendeu que Bolsonaro: “lance o povo às ruas contra o Congresso”.

A tentativa de desestabilização das instituições liberal-democráticas por chefes de Estado autoritários, através da convocação de manifestações de cunho populista não é novidade na história das democracias. Portugal passou por um episódio semelhante poucos meses após a revolução de 25 de abril de 1974, quando o então presidente General António de Spínola convocou a chamada manifestação da “Maioria Silenciosa” para 28 de setembro do mesmo ano.  Convocada pelo próprio presidente, contra os poderes de Estado, ou seja, contra o governo e o parlamento – apelava à população rural e conservadora a marchar sobre à capital Lisboa. O autogolpe de Estado, organizado pelo presidente, só foi derrotada pela unidade das forças democráticas e progressistas, e através da mobilização popular. Os partidos políticos de esquerda denunciaram as tentativas contrarrevolucionárias e passaram a distribuir comunicados em apelo à vigilância popular. Através da mobilização e do bloqueio da capital por meio de barricadas, conseguiram impedir a marcha que nunca ocorreu. Essa vitoria levou à saída de Spinola da Presidência da República e os partidos de extrema-direita que o apoiaram, desapareceram.

É verdade que naquele período em Portugal a esquerda estava fortalecida e tinha parte dos militares ao seu lado (que inclusive participaram do processo revolucionário), enquanto o Brasil está a viver uma onda reacionária. Entre semelhanças e diferenças deixa duas reflexões: aos brasileiros a certeza que a marcha da maioria silenciosa em Portugal não foi bloqueada, tão somente, por apelos em defesa da democracia, mas pela mobilização popular efetiva, só ela é capaz de conter a ascensão do fascismo.  Aos portugueses a certeza que essa “vigilância popular” deve ser contínua, e o bem-estar social conquistado outrora pode sempre vir a ser solapado quando não estamos atentos às armadilhas democráticas.

O samba enredo da escola campeã do carnaval 2020 de São Paulo, Águia de ouro, que homenageou o grande educador nordestino Paulo Freire, nos relembra a importância da educação, da memória e sobretudo da ação política transformadora que nos afasta dos fantasmas do fascismo: “Poder do saber – Se saber é poder… Quem sabe faz a hora não espera acontecer”.

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Sou a Marcela

Bem-vind@s neste blog onde tento juntar as coisas que tenho escrito. Sou filosofa e jurista Luso-Brasileira, e combino minha vida académica com ativismo anticapitalista, antirracista e feminista.