[Carta Maior] O paternalismo idílico do império colonial

A violência racista que levou a morte o cidadão afro americano George Floyd gerou uma onda de manifestações antirracistas em todo o mundo. Alguns desses protestos resultaram na depredação de estátuas que homenageavam figuras que representam uma herança colonialista e imperialista. Cultura que continua a cultuar como heróis nacionais personalidades e monumentos que representam o paternalismo imperial genocida que reifica corpos e objetos. A construção social alienante de silenciamento – e consequentemente apagamento da barbárie, oculta a necessidade da discussão de uma ressignificação dos patrimônios históricos, para que se abandonem os consensos nacionais construídos em tempos de falta de memória.

Em Portugal, no último 11 de junho, o grafite em cor vermelha a demarcar sangue no monumento recentemente erguido em homenagem à uma personalidade conhecida na história colonialista brasileira – o catequizador dos povos indígenas – padre António Vieira, arrematada pela frase: descoloniza – fez reacender o debate no país sobre a urgência de se repensar a valorização da história colonial sem um recorte reflexivo. Afinal, o que é possível ressignificar, e o que é necessário banir?

Do discurso hegemônico ensinado ainda na infância (nas primeiras aulas de história do Brasil) – do padre caridoso defensor dos povos indígenas pagãos, salvador de suas almas, aos escritos poucos divulgados de um padre esclavagista seletivo, já que a evangelização jesuíta foi a maior responsável pelo etnocídio ameríndio, sucumbe a quem serve a romantização da história. No um primeiro livro de uma trilogia publicada em 2019, o jornalista e escritor brasileiro Laurentino Gomes nos apresenta: “Escravidão: do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares” – nele ao revisitar centenas de documentos históricos nos apresenta a figura de um Padre António Vieira afeito a escravatura dos povos africanos, que justificava a mesma como desígnio divino.

As manifestações pacíficas ainda em 2017, organizadas pelo SOS racismo, intituladas: “descolonizando Padre António Vieira”, resumem o que já há muito tempo estava em causa: refletir e discutir promovendo a construção de uma narrativa crítica. Essa manifestação na altura foi impedida por grupos de extrema-direita conhecidos como hannerskins. Segundo relato do jornal português, O Público, na época ainda havia sido colocada uma fita com a mensagem: “Portugueses primeiro” acompanhado pelo símbolo da cruz de malta. O episódio foi esquecido, a estátua permaneceu…

Em Coimbra, a marca do colonialismo no espaço público sem uma leitura verdadeiramente crítica da história colonial é ensinada às crianças em um parque temático conhecido como Portugal dos Pequenitos, inaugurado ainda em 1940. No local há em todo o espaço a celebração da colonização sem nenhum recorte crítico. A linguagem que evoca a “portugalidade” sequer faz qualquer enquadramento histórico do que ali está. Todo o espaço é uma celebração da colonização. Várias tentativas já foram feitas de dar uma visão crítica á abordagem histórica a qual o local faz alusão, sem sucesso. O pedido que é constantemente recusado pela fundação Bissaya Barreto (responsável pela manutenção do local) segue sem justificação.

Para além da violência colonial no Brasil, Portugal é o país europeu com mais anos de relação de exploração e dominação no continente Africano – narrativa velada pela imagem idílica do parque. Ainda que tenha sido construído em 1940 (período da ditadura fascista de Salazar) sob promoção do médico, político e professor da Universidade de Coimbra, Bissaya Barreto, já deveria ter informações que o contextualizasse de forma crítica e desse um filtro de análise ao local. Contudo, em vez de ser ressignificado como um documento histórico sobre a violência colonial, se estabelece tão somente como uma iconografia do império.

A mentalidade escravocrata continua a existir entre nós, ainda que muitas vezes de maneira sutil e disfarçada. Trata-se de uma construção histórica muito bem arquitetada que inclui o preconceito racial e o regime de trabalho que, em muitos aspetos, se assemelha ao cativeiro.

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Sou a Marcela

Bem-vind@s neste blog onde tento juntar as coisas que tenho escrito. Sou filosofa e jurista Luso-Brasileira, e combino minha vida académica com ativismo anticapitalista, antirracista e feminista.