Por Marcela Uchôa
No ano que marca os oitenta anos do fim da Segunda Guerra Mundial, assistimos a um novo recrudescimento dos discursos de ódio, seja no âmbito da política interna dos Estados-nação, seja nas políticas internacionais. As democracias liberais, em colapso, são marcadas por identidades (raça, nação, gênero) que se veem ameaçadas em períodos de crise, e pela concomitante defesa de um Estado forte, com imposição de ordem e censura. Isso une movimentos que tradicionalmente são vistos como opostos — conservadores e progressistas — numa mesma lógica de fortalecimento de uma política reacionária.
O termo woke popularizou-se nos Estados Unidos como sinônimo de políticas liberais que defendem pautas legítimas, como igualdade racial e social, feminismo, o movimento LGBTQIA+, o uso de pronomes de gênero neutro, o ativismo ecológico, entre outras. Na medida em que se tornam alvo de críticas da extrema-direita, que fala em cancelamento e controle, muitos desses mesmos artifícios vêm sendo utilizados para o fortalecimento de uma política identitária sectária e moralista.
Em seu mais recente livro publicado, Left is Not Woke, a filósofa Susan Neiman defende que o wokismo também é responsável por esse fortalecimento, já que, desde sua gênese, entra em conflito com ideias que norteiam a esquerda há centenas de anos: o compromisso com o universalismo, a distinção objetiva entre justiça e poder, e a crença na possibilidade de progresso. Sem essas ideias, para a filósofa, os wokistas continuarão a minar o caminho e caminharão, ainda que sem intenção, mas indubitavelmente, rumo à direita — arriscando tornar-se aquilo que desprezam.
As eleições na Alemanha têm sido um bom exemplo de como a representatividade sem consciência política e de classe pode servir a fins políticos escusos. A líder da extrema-direita, Alice Weidel, que é casada com uma mulher estrangeira, reivindica os direitos LGBTQIA+ e das mulheres contra os imigrantes. O colonialismo LGBT de Israel também é outro exemplo.
Ainda que, numa análise superficial, esses fenômenos pareçam paradoxais, basta olharmos para o passado para perceber que, mesmo em contextos distintos, reivindicações de identidade e de nação foram o pilar sobre o qual se construiu uma política reacionária. De um ponto de vista histórico, ainda que reconheçamos que movimentos progressistas estiveram na base de muitas lutas e conquistas emancipatórias, dentro de um contexto de crise eles têm grande potencial de se tornarem reacionários.
Quando o autodenominado Movimento Identitário se popularizou nos anos 1970 na França, tratava-se, na verdade, de uma renovação do fascismo dos anos 1930. Desde o início, os dirigentes intelectuais da nova direita incluíram pautas ecológicas e indigenistas — existem, por exemplo, as cartas de Alain de Benoist a líderes indígenas americanos, que via esses grupos como aliados identitários contra a hegemonia liberal americana.
Ainda assim, essa nova direita revanchista pós-guerra distingue-se do fascismo tradicional por tratar da “defesa” de identidades — nomeadamente, a nação — em declínio. Para o historiador Eric Hobsbawm, essa postura contrasta com a perspectiva original do nacionalismo como um movimento progressista de emancipação nacional, que surgiu com o desmantelamento dos impérios e foi baseado em emancipação linguística, soberania popular, democracia e espaço público. Era o movimento de uma burguesia nacional em ascensão. Com seu declínio, ressurge a defesa do Estado-nação em sua versão paranoica, agarrando-se às instituições repressivas do Estado e ao moralismo.
São discursos como: “Precisamos defender nossas fronteiras, ensinar educação moral e cívica, impedir que sejamos invadidos por imigrantes com seus crimes”. Nesse sentido, o Estado-nação se mostra como o último refúgio do que é meu. “É o meu país, a minha língua, são os meus costumes.” Mas é também a minha miséria, o meu sufocamento.
Para o filósofo brasileiro Vladimir Safatle, em seu livro Circuito dos Afetos, o fascismo será sempre baseado na deposição da força popular em prol de uma liderança fora da lei. É a colonização do desejo anti-institucional pela própria ordem. Esse desejo contra as instituições tem o potencial de criar poderes que fogem das mãos do povo, gerando democracias que compreendem a representação apenas como um estágio para transferir a deliberação e a gestão para a imanência do povo.
A alienação das políticas progressistas e sua redução a pautas identitárias sem universalidade e efetividade têm permitido que o fascismo se aproprie da crítica legítima à ineficácia das instituições e a transforme em um clamor por um governo de mão forte — expresso numa liderança que parece estar acima da lei, que parece poder falar o que quiser sem responsabilidade, expondo seus piores sentimentos sem preocupação com seus efeitos.
Ironicamente, uma crítica similar surge de movimentos que, até bem pouco tempo, consistiam em lutas emancipatórias. Parte de suas lideranças, ao mesmo tempo em que questiona a eficácia e a legitimidade das instituições, também se agarra ao aparelho de Estado, à censura, à segurança, a políticas de criminalização e punição — promovendo linchamentos nas ruas, nas redes sociais ou na esfera pública. A direita populista, que combate o “politicamente correto”, é, portanto, um espelho daquilo que alguns ainda consideram “a esquerda”.
É importante sublinhar que não se combate essa falência de certo progressismo woke pela adoção de um discurso de direita em temas éticos e identitários, como fez a BSW de Sahra Wagenknecht na Alemanha. A única forma de contrariar esse discurso neofascista é afirmá-lo tal como é: políticas baseadas em identidade têm o potencial de se tornarem conservadoras e reacionárias. É urgente apresentar uma política emancipadora, materialista e universalista.
Como mulher racializada, de origem de classe trabalhadora precarizada e imigrante, ser feminista e antirracista foi um caminho natural de sobrevivência. Mas esse feminismo e antirracismo só fazem sentido no quadro geral da defesa do socialismo. Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres. (Rosa Luxemburgo)
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