A afirmação que dá início ao livro “Teologia Política” de Carl Schmitt – “Soberano é quem decide sobre o estado de exceção” – a ser trazida para atualidade poderia muito bem estabelecer-se como uma síntese notável do nosso tempo. Ainda assim, ecoa de forma sorrateira diante do grande volume de informações que ultrapassam o alcance dos meios de comunicação convencionais, mas denuncia o morticínio, direta e indiretamente financiado pelas maiores democracias liberais do mundo. Não por acaso, em continuidade ao pensamento de Schmitt, Agamben em seu “Homo sacer: o poder soberano e a vida nua”, afirmou: “A especificação ‘ao mesmo tempo’ não é trivial: o soberano, tendo o poder legal de suspender a validade da lei, coloca-se legalmente fora dela”.
Diante da atual escalada da violência no Oriente Médio financiada com recursos e ação indireta/direta do mundo Ocidental, a total ineficácia e subjugação das Nações Unidas e da diplomacia europeia são mais que um diagnóstico, são o retrato de um tempo e da própria decadência da democracia liberal. Nessa condição política, a violência descomunal e extralegal se torna condição da subsistência da própria lei, não havendo polarização entre as epistemologias, mas a inevitável indistinção entre a legalidade e a violência. Assim, o paradigma da exceção deixa de ser meramente cartorial. Nessa abordagem, a ordem da lei depende da ordem da violência, de forma generalizada.
O discurso da suposta Guerra ao Hamas LGBTfóbico, bem como a Guerra à ditadura opressora das mulheres no Irão, demonstra perfeitamente a lógica liberal que sustenta a ideia de combate a um inimigo comum, tão bem explicada por Carl Schmitt em O conceito do político. Esse tipo de argumentos não só tem camuflado o racismo, a perseguição e a negação dos direitos sociais e políticos de um povo, como também tem contribuído, de forma efetiva, para a execução de um genocídio que vem sendo mediaticamente justificado. Enquanto isso, a consagração da subordinação de grande parte do mundo aos interesses do grande capital imperialista, alinhado aos interesses supremacistas de “democracias” como Israel e dos Estados Unidos não são uma mera coincidência.
O poder do grande capital ultrapassa qualquer diretriz de sensibilização no quadro do liberalismo burguês. O silêncio diante da violência é resultado de um processo sistemático de naturalização da barbárie, sustentado por quase meio século de alianças entre o movimento sionista e as potências imperialistas. A fase inaugurada com o fim do alinhamento da política britânico-sionista e a consolidação da nova aliança sionista-imperialista com os Estados Unidos marca desde muito tempo uma reorientação tática decisiva.
O que fica razoavelmente obscurecido é o caráter de classe da guerra. Quando Carl Schmitt propõe a independência dos conceitos políticos em relação aos económicos, acaba convencido de que seria possível analisar as estruturas capitalistas sem recorrer às bases materiais desse sistema: a exploração de uma classe por outra. Contudo, os dispositivos de controle são sempre o ódio de classe e a violência do confronto estratégico. Dessa forma, uma análise sobre a Guerra não pode deixar de ser considerada como uma análise sobre a guerra de classes: dos dispositivos, a estratégia, e, sob a técnica, a vontade de dominação de certas ‘pessoas’ (os patrões) sobre outras ‘pessoas’ (os trabalhadores).
O aparato técnico-informacional de reprodução do capitalismo global exige a constante subordinação das resistências para continuar se ampliando, indefinidamente. Evidentemente, a apresentação do campo de concentração como “matriz oculta” do moderno não significa que a violência descarnada de Auschwitz tenha se tornado cotidiana. Significa que o estado de exceção tem permeado os saberes, as práticas e as estratégias da política moderna. A eficácia desse paradigma se mostra no facto de que esse estado de emergência não só continuou a funcionar a partir da Primeira Guerra Mundial, por meio do fascismo e do nacional-socialismo, como permanece presente nas estruturas sociais até nossos dias.






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