[Maio] A lógica da guerra infinita como estratégia de governo

Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.

Artigo original do Jornal Maio:
https://jornalmaio.org/a-logica-da-guerra-infinita-como-estrategia-de-governo/

Acumulação do Capital: Uma Contribuição à Teoria Econômica do Imperialismo, de Rosa Luxemburgo, foi publicado em 1913 às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Suas avaliações críticas ao colonialismo e ao imperialismo não estavam apartadas da sua própria experiência como uma judia crescendo na Polónia ocupada pela Rússia, ela estava pessoalmente consciente dos impactos da dominação colonial.

Já nos seus primeiros trabalhos, esteve comprometida com a denúncia de como o extermínio dos povos indígenas e a interferência do capitalismo euro-americano nas formações sociais do mundo não ocidental não eram um acidente ocasional da acumulação de capital, mas sua própria base. Faz parte do capitalismo eliminar as economias pré-capitalistas, autossuficientes e não monetárias, transformando-as em ferramentas para acumulação de capital. Para tanto, faz uso de métodos como violência, fraude e até mesmo de genocídios.

Nesse sentido, embora motivações ideológicas facilitem o processo, o imperialismo é impulsionado pelas engrenagens do próprio capital, e por isso é viabilizado tanto em formas autoritárias de governo, quanto em “democracias” capitalistas.

“Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.”

Maria Mies, uma das primeiras feministas a analisar sistematicamente o papel das mulheres no capitalismo com base na estrutura de Rosa Luxemburgo, em seu livro Patriarcado e acumulação em escala mundial, aplica a teoria do imperialismo de Rosa Luxemburgo às mulheres, ao seu trabalho e à família.

A abordagem de Mies traça paralelos entre o trabalho feminino e o trabalho não remunerado de camponeses, colónias e outros “meios não capitalistas”, que Luxemburgo descreveu como sendo explorados “gratuitamente”, de forma semelhante à natureza. Maria Mies não vê o patriarcado e o capitalismo como sistemas separados, antes compreende que eles formam uma única entidade: o patriarcado capitalista. Por isso, para ela a subjugação das mulheres não se deve à misoginia masculina inerente, mas sim a uma necessidade estrutural para a acumulação de capital. Assim como Rosa Luxemburgo via a acumulação primitiva como intrínseca ao capitalismo, Mies afirma que o capitalismo não pode funcionar sem o patriarcado, visto que a acumulação contínua de capital requer a manutenção ou a criação de relações de género patriarcais e/ou coloniais.

Se Mies vê o patriarcado como expressão intrínseca da acumulação primitiva, também é verdade que os sujeitos dentro de um estado de exceção estão a mercê da mesma lógica da acumulação primitiva. Nesse sentido, os corpos racializados e colonizados de Gaza encontram-se em posição equiparada de exploração. Se em certo contexto histórico de superexploração, trabalhavam para empresas israelitas como forças de reservas para baixarem os salários, agora são expulsos do próprio território para aumentarem o valor de exploração.

No livro Pele Negra, máscaras brancas Frantz Fanon argumentou que a crescente conscientização dos trabalhadores em países colonizadores e racistas – levou a uma evolução no conceito de raça. Se o racismo vulgar e biológico correspondia ao período de exploração bruta do trabalho físico, onde a subjugação e a desumanização dos escravizados eram justificadas por hierarquias raciais pseudocientíficas, à medida que os meios de produção se tornaram mais avançados, as técnicas de exploração — e as formas de racismo — tornaram-se mais dissimuladas. A distinção colonial/racial entre civilização e barbárie evoluiu para uma divisão entre aqueles percebidos como capazes de dominar a natureza e aqueles vistos como subjugados por ela ou inerentemente parte dela.

Já Tithi Bhattacharya defende que todo esse processo sempre aconteceu sobre uma base de racialização intensa, o que não só fomentou a manutenção dos salários baixos, como fez subempregos parecerem um presente do capital a determinadas comunidades racializadas. Reconhecer as principais vítimas desse caminho também nos faz compreender porque sindicatos formados em sua maioria por trabalhadores do Sul global compostos por uma classe trabalhadora diversa, demonstram maior solidariedade e identificação com Gaza do que tantos outros da Europa.

Contudo, é importante reconhecer que o que tem sido feito ainda é muito pouco. O que estamos a assistir nada mais é do que a lógica da guerra infinita como dispositivo de governo, onde a desordem contínua é a única condição para a preservação de uma ordem que não tem mais como garantir horizontes normativos estáveis. Antes, o que temos visto é a consolidação daquilo que Giorgio Agamben chamou de paradigma da exceção. Simplesmente, porque militarizar as mentes é também acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo. É a banalização das piores violências, como um soberano que tem direito sobre a vida do outro.

Segundo Carl Schmitt, trata-se da construção no imaginário social de um inimigo eterno, onde a militarização das mentes emerge como uma técnica eficaz para acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo.

Fenómenos que podem ser observados desde os discursos de ódio e dessensibilização em face à violência estatal nas periferias do mundo, quanto na execução da política colonialista do Estado israelita que se estrutura desde a Guerra Fria através da emergência de um Estado que se estabeleceu enquanto superpotência na ordem bipolar. A política baseada no proveito político e económico feito pelo movimento sionista que fez que este se aliasse a uma potência capitalista imperialista, capaz de assegurar a expulsão sistemática dos Palestinos, é a prova da instrumentalização desse processo. Características que podem ser observadas na tentativa de confinar o máximo de palestinianos, mas também no roubo de recursos estratégicos (água e terra cultivável), utilização da mão de obra barata, trabalho análogo ao escravo.

Entender as dinâmicas de opressão e trabalho reprodutivo que se conjugam em Gaza há décadas é compreender as estruturas que autorizam e naturalizam a utilização de artifícios imperialistas de governo a serem aplicados em escala indefinida contra populações colocadas em extrema vulnerabilidade. Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.

Uma resposta a “[Maio] A lógica da guerra infinita como estratégia de governo”

  1. Avatar de Anónimo
    Anónimo

    A engrenagem do capital é a violência que este transporta, violência esta que se traduz num número infindável de formas de subjugação. O medo não percebido.

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Sou a Marcela

Bem-vind@s neste blog onde tento juntar as coisas que tenho escrito. Sou filosofa e jurista Luso-Brasileira, e combino minha vida académica com ativismo anticapitalista, antirracista e feminista.