Artigo original no site da Labipol UECE:
https://labipol.com.br/noticia/a-greve-enquanto-expressao-suprema-do-poder-de-dizer-nao/

O ano de 2025 marcou o retorno, no debate público, da urgência da utilização da Greve Geral como freio de emergência no mundo do trabalho em Portugal. Desde então, com a última grande Greve Geral tendo ocorrido há mais de 11 anos, o deterioramento (ou deterioração) do espaço público, o crescimento de discursos de ódio e a alienação caminharam quase que de mãos dadas com a crescente perda de direitos e garantias já adquiridos. O culminar da atual conjuntura, onde assistimos à insistência do Governo em tentar passar um pacote laboral pouco popular, é a sua inclinação a ceder a condições impostas pela extrema-direita, que sugere a diminuição da idade da reforma.

A naturalização da perda de direitos expõe o papel dos atuais representantes do Estado não como agentes em defesa do bem público, mas como funcionários a serviço do grande capital financeiro. Os números confirmam esta tendência: em 2025, 15,1% dos trabalhadores portugueses tinham contratos temporários — acima da média europeia —, quase quatro em cada dez jovens laboravam em condições precárias, e o salário médio nacional ficava 1.249 euros abaixo da média da União Europeia.

“A naturalização da perda de direitos expõe o papel dos atuais representantes do Estado não como agentes em defesa do bem público, mas como funcionários a serviço do grande capital financeiro.”

À mercê desse tipo de governança, o trabalhador não produz para satisfazer suas próprias necessidades, ou para realizar suas potencialidades, mas para valorizar o capital do empregador. A transformação do proletariado em uma peça da engrenagem produtiva, cuja atividade é direcionada à acumulação de riqueza e lucro, e não à realização de suas próprias necessidades e potencialidades, é o ponto-chave desse jogo, onde o esfacelamento da saúde mental e a gestão do sofrimento psíquico são estratégias centrais.

Nesse contexto, a greve ultrapassa o papel de simples instrumento sindical voltado para reivindicações salariais. Ela representa a expressão máxima do poder coletivo de dizer “não” às estruturas de exploração. Ao interromper a produção e paralisar os mecanismos que sustentam a economia, a greve torna visível o conflito permanente entre a busca incessante pelo lucro e a preservação da vida, da dignidade e dos direitos dos trabalhadores.

“A greve representa a expressão máxima do poder coletivo de dizer “não” às estruturas de exploração. Ao interromper a produção e paralisar os mecanismos que sustentam a economia, a greve torna visível o conflito permanente entre a busca incessante pelo lucro e a preservação da vida, da dignidade e dos direitos dos trabalhadores.”

Um dos aspetos mais relevantes desse processo é o seu poder de interrupção. Quando a população tem suas demandas ignoradas pelas elites económicas ou pelo Estado, a greve emerge como uma forma de paralisação capaz de afetar setores essenciais. Dessa forma, evidencia-se que o funcionamento da sociedade depende fundamentalmente do trabalho coletivo, revelando uma força capaz de desafiar e desestabilizar as estruturas de poder estabelecidas.

Além disso, uma crítica radical à sociedade do trabalho exige que as mobilizações ultrapassem o reformismo limitado e questionem a própria lógica capitalista. Não se trata apenas de melhorar condições de trabalho ou ampliar direitos, mas de confrontar um sistema que reduz os indivíduos à condição de instrumentos da produção e da acumulação de capital.

“Além disso, uma crítica radical à sociedade do trabalho exige que as mobilizações ultrapassem o reformismo limitado e questionem a própria lógica capitalista.”

Por fim, a resistência também se manifesta por meio dos corpos que ocupam as ruas e os espaços públicos. Afinal, não há ação política sem a presença concreta dos sujeitos. A greve, os protestos e as ocupações representam formas de contestação das dinâmicas de sofrimento social, precarização e indiferença. Nesse sentido, a revolta não é apenas uma reação às injustiças, mas uma afirmação da capacidade coletiva de construir novas formas de vida, sociabilidade e emancipação

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Sou a Marcela

Bem-vind@s neste blog onde tento juntar as coisas que tenho escrito. Sou filosofa e jurista Luso-Brasileira, e combino minha vida académica com ativismo anticapitalista, antirracista e feminista.